google.com, pub-4979583935785984, DIRECT, f08c47fec0942fa0
top of page
  • Vinicius Monteiro

O Abandono Paterno - "Clube da Luta" Análise

Atualizado: 10 de mar.

O Abandono Paterno Clube da Luta Análise

'Clube da Luta' é um dos meus livros favoritos e tem bastante coisa legal nele para conversarmos e debatermos né? Eu já escrevi uma matéria sobre o livro aqui no blog chamado 'O que é ser Másculo' que você pode conferir clicando aqui, mas existem outros assuntos importantes que também são possíveis discutir sobre.

Apesar de muitas pessoas conhecerem 'Clube da Luta' pelo filme, que teve seu marketing completamente errôneo focado na violência, o livro traz uma profundidade muito maior sobre a masculinidade. Lembrando que o texto a seguir é somente uma perspectiva que tive sobre a vida dos personagens que eu achei interessante escrever sobre. Cada um tem a sua experiência de vida, sendo diferente do ponto de vista apresentado a seguir ok?

Lá no capítulo seis do livro, o Narrador está completamente envolvido com o clube da luta e nada parece mais incomodá-lo, é como se ele tivesse achado a sua salvação espiritual. Sua narrativa volta para sua primeira luta com Tyler no bar. Após a luta, o Narrador pergunta a Tyler contra o que ele realmente estava lutando. Tyler responde que estava lutando contra seu pai. O Narrador discute como nem ele nem Tyler tiveram figuras paternas fortes em suas vidas.

Nesse trecho citado acima, a questão do abandono paterno me chamou muito atenção, a masculinidade não é só formada de dentro para fora, mas há também uma grande influência das referências externas que cada indivíduo tem para a sua construção e imagem masculina.

Segundo um levantamento da Central Nacional de Informações do Registro Civil (CRC), em 2020, 6,31% das 1.280.514 crianças foram registradas apenas com o nome das mães. No ano de 2021, também segundo a CRC, 167.285 crianças foram registradas sem o nome do pai no Brasil. Outro dado divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que 11,6 milhões de famílias são formadas somente por mães solo.

O pai do narrador se divorciou e se casou novamente várias vezes; ele começou novas famílias como "franquias", como comenta o Narrador. O pai de Tyler é desconhecido para ele. O Narrador acha isso uma situação comum para os homens de sua geração. Os outros personagens do livro também são assombrados pelo abandono físico e emocional de seus pais.

O artigo 227 da Constituição Federal e artigo 4º do Estatuto da Criança e do Adolescente, atribuem aos pais e responsáveis o dever geral de cuidado, criação e convivência familiar de seus filhos. O abandono paterno ou afetivo é o descumprimento da lei, não é só uma falta de responsabilidade. Um pai que é negligente aos cuidados com os filhos pode responder judicialmente. A lei é clara: "toda criança tem o direito de ser cuidada por seus pais", mas segundo os dados já mostrados acima, na prática essa lei ainda não conseguiu efetivamente mudar o panorama do abandono.

O relacionamento entre pai e filho pode ser expresso como talvez o relacionamento mais crítico que um homem enfrenta em sua vida. Essa é a relação que influencia o homem e todas as outras relações que ele constrói ao longo de sua vida. Um estudo feito pelo National Fatherhood Initiative descobriu que a ausência paterna pode gerar problemas econômicos, sociais e inclusive, prejudicar a saúde física e mental do indivíduo.

Para o psicanalista Sigmund Freud, o período no qual o pai exerce sua maior importância na vida do filho é na fase fálica, mais especificamente no período do complexo de Édipo, ocorrendo entre o terceiro e quinto anos de vida. Já o psicanalista Donald Woods Winnicott afirma que o pai tem diferentes funções ao longo da vida do filho. Nos primeiros meses, quando o bebê se encontra na fase da dependência absoluta, a função do pai deve oferecer um ambiente real e de qualidade onde a criança possa se desenvolver. Na fase de dependência relativa, o pai deve auxiliar a mãe no processo de rompimento do vínculo simbiótico, o que está diretamente relacionado com o quanto esse homem fará parte da vida do filho.

A ausência paterna pode ser física, quando por exemplo, os pais são separados e o homem tem pouco ou nenhum contato com os filhos, ou emocional, quando o casal está junto, mas o homem não participa da criação dos filhos. As principais características de um pai ausente são:

Falta de empatia: tem pouca conexão afetiva com os filhos mantendo uma relação superficial.

Imaturidade emocional: pessoas que não amadurecem emocionalmente têm dificuldade para se relacionar. São pais que vivem como se fossem adolescentes e não são capazes de expressar suas emoções.

Irresponsabilidade: a maioria dos pais ausentes tomaram a decisão (consciente ou não) de fugir da responsabilidade de criar um filho. Atuam como se a criança não existisse, deixando todas as responsabilidades para a mãe ou outros cuidadores.

Egocentrismo: o pai que faz seus planos como se os filhos não existissem. Prioriza outros temas como o trabalho, o dinheiro, a vida social, os esportes, etc.

Obsessão pelo trabalho: muitos pais ausentes são workaholics, podendo passar 14 horas ou mais no escritório. Nunca têm tempo para a família.

Ter um pai ausente deixa muitas sequelas. Segundo os psicólogos, adultos que não tiveram o amor e cuidado paterno costumam ser ou ter:

Desapegados emocionalmente: têm dificuldades em estabelecer vínculos afetivos fortes e duradouros. Muitos filhos de pais ausentes, repetem esse comportamento quando se tornam pais.

Inseguros: pessoas que têm mais medo da decepção e do abandono. O medo ao abandono pode gerar uma enorme dependência emocional em relação a outras pessoas.

Autoestima mais baixa: a rejeição paterna compromete a autoestima.

Propensas a reações tóxicas: devido à baixa autoestima e à carência afetiva, muitas delas não são capazes de cortar determinados vínculos nocivos, vivendo relações abusivas e infelizes.

Propensas a transtorno psicológico: o sofrimento gerado por um pai ausente pode ter várias consequências psicológicas como a depressão, a ansiedade e a anorexia.

Propensas aos vícios: muitos filhos de pais ausentes tentam compensar essa carência em drogas, sexo, jogo, compras, etc.

É interessante analisar os personagens do livro, pois a falta de um modelo masculino faz os personagens buscarem referências em outros lugares. Sem modelos masculinos distintos em suas vidas, o Narrador e Tyler aceitaram amplamente o papel dos homens na sociedade, conforme apresentado a eles através da publicidade e do marketing. O objetivo é conseguir um bom emprego com um bom salário, casar e ter filhos. Os homens do clube da luta viram um vazio nesse modelo e o rejeitaram.

Até pouco tempo atrás, o papel do homem na família era trabalhar para sustentar economicamente a mulher e os filhos, se você assim como eu cresceu nos anos 90, esse era um padrão tipicamente universal nessa época, é nesse ambiente social que os personagens dos livros vivenciaram. A figura paterna tinha o poder financeiro, ele era a autoridade da casa, era quem dava a última palavra e não se envolvia na criação dos filhos. Muitos estavam presentes fisicamente, mas distantes emocionalmente.

Nos dias atuais, com a inserção da mulher no mercado de trabalho, a configuração familiar sofreu uma mudança profunda. O pai e a mãe passaram a compartilhar a responsabilidade na educação dos filhos. Apesar dessa mudança comportamental gerar atrito em algumas relações, essa transformação trouxe benefícios às crianças.

Muitos estudos apontam que crianças que têm o pai envolvido na sua educação: Têm a autoestima mais elevada; São mais seguras emocionalmente; Têm menos probabilidade de abandonar os estudos; Se envolvem menos com drogas; Desenvolvem relações sociais e afetivas mais saudáveis; São mais empáticas; Vão melhor na escola; Tem mais inteligência emocional.

De fato, ter um pai ausente deixa marcas emocionais e psicológicas. No entanto, isso não significa o fim do mundo e nem que será impossível ser feliz. Se você tem um pai ausente, o primeiro passo para seguir em frente é aceitar como se sente em relação a isso. Também é importante ter em mente que você não é culpado pelas escolhas dos outros, mas é responsável por traçar seu próprio caminho.

Ficar remoendo o passado não mudará a situação, mas está nas suas mãos ter um futuro mais feliz. Além disso, você pode conseguir ficar mais em paz se passar a valorizar mais outras pessoas que tiveram um papel fundamental no seu desenvolvimento, como a sua mãe, os seus avós ou seus tios.

Se você sente que é incapaz de superar essa dor, ou está sofrendo com isso, talvez seja o momento de buscar apoio psicológico. Um psicólogo terá as ferramentas necessárias para ajudar você a ver essa relação de outro prisma. E lembre-se que você é dono do seu próprio destino.


Comments


bottom of page